O que você chama de crise de saúde mental está funcionando exatamente como deveria.
- André Lombardi

- 29 de abr.
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Essa frase é dura. Eu sei. Mas ela precisa ser dita — porque enquanto continuarmos chamando de crise de saúde mental o que é, na raiz, uma crise da organização do trabalho, vamos continuar tratando as pessoas e devolvendo elas para o mesmo sistema que as adoeceu. E o sistema vai continuar funcionando exatamente como deveria.
Existe um mal-entendido muito comum quando o assunto é saúde mental e trabalho. A conversa costuma cair rapidamente num lugar seguro: burnout, gestão do estresse, limites saudáveis, autocuidado. Como se o sofrimento que as pessoas experimentam no contexto do trabalho fosse um problema de ajuste, de não saber se organizar, de não conseguir desligar, de não ter aprendido ainda a dizer não. Esse enquadramento tem uma utilidade: ele é palatável para empregadores, mensurável para gestores de RH, e conveniente para um mercado inteiro de consultorias de bem-estar corporativo que faturou bilhões nos últimos anos prometendo transformar ambientes de trabalho adoecedores em espaços mais "saudáveis", sem questionar uma vírgula da lógica que os torna adoecedores.
O pesquisador de saúde mental e ativista Nic Murray, no livro The Work Cure, documenta com precisão como esse processo funciona. Empresas assinam compromissos públicos de saúde mental, instalam cartazes motivacionais nas cozinhas, promovem "cafés de conversa" sobre bem-estar e mais da metade não muda uma única política de RH como resultado. O que está em jogo não é o sofrimento real dos trabalhadores, mas a gestão da imagem da empresa como empregadora empática. Murray chama isso de captura do discurso do sofrimento: a linguagem da dor é apropriada, esvaziada de seu potencial crítico e devolvida como produto. Quando um trabalhador é encorajado a "falar sobre saúde mental" num ambiente corporativo, frequentemente o que está sendo pedido é que ele entregue sua história para que a empresa construa sua reputação, enquanto as condições que produziram o sofrimento permanecem intactas.
Isso se torna ainda mais sofisticado quando a resposta ao sofrimento assume a forma de práticas que parecem transformadoras. O psicólogo Steven Stanley, analisa como o mindfulness, originalmente uma prática contemplativa de desaceleração e presença, foi subsumido pela lógica corporativa para produzir trabalhadores mais resilientes, ou seja, com maior capacidade de suportar condições de trabalho objetivamente prejudiciais. A frase do fundador do movimento de mindfulness moderno, Jon Kabat-Zinn, diz tudo: "você não pode parar as ondas, mas pode aprender a surfar". O problema é que as ondas, as condições estruturais que adoecem, são apresentadas como fenômenos naturais e inevitáveis, e a única tarefa que resta ao trabalhador é desenvolver a postura certa diante delas. Surfar melhor numa maré que te afoga não é emancipação. É adaptação.
Mas o que eu quero propor aqui, nesse 1º de maio, é que a gente pare um momento e olhe para uma camada mais funda. Porque o sofrimento que aparece nos consultórios, nas reuniões de equipe, nos corpos que acordam já cansados antes de começar o dia, esse sofrimento não é, em sua maior parte, um problema de gestão individual. É um produto estrutural de como organizamos coletivamente a nossa existência em torno do trabalho assalariado.
David Frayne, sociólogo britânico, descreve o que chama de "dogma do trabalho": a ideia de que o trabalho ocupa, nas sociedades contemporâneas, um status ético quase intocável. O trabalho deixou de ser apenas uma fonte de renda e tornou-se a principal porta de entrada para quase tudo que uma pessoa pode querer: identidade, reconhecimento social, senso de pertencimento, dignidade, direitos. Ser alguém, numa sociedade centrada no trabalho, significa antes de mais nada ser um trabalhador. A primeira pergunta que fazemos a um estranho numa festa não é "o que você ama?", "o que te move?", "como você experimenta o mundo?". É: "o que você faz?" e todo mundo sabe que essa pergunta significa "qual é o seu trabalho?". O trabalho se tornou a moeda com a qual compramos nossa existência legítima.
Isso tem um peso enorme. Porque quando o trabalho se torna o único critério de pertencimento social, o que acontece com quem está fora ou à margem dele? O que acontece com quem está desempregado, com quem adoeceu e não consegue trabalhar, com quem cuida de filhos ou de familiares sem receber nada por isso, com quem criou mas não monetizou? A resposta que o sistema dá é dura: você não conta. Você precisa se justificar. Você é um fardo, alguém que não está cumprindo sua parte. Frayne descreve a situação de quem está fora do trabalho numa sociedade centrada nele como uma espécie de terra de ninguém, um tempo degradado por preocupações financeiras, isolamento social e estigma. E essa descrição ressoa porque todos nós conhecemos ela de alguma forma. Já sentimos a ansiedade de não ter o que responder quando alguém pergunta o que estamos fazendo da vida. Já nos envergonhamos de uma pausa, de uma transição, de um período em que simplesmente não estávamos produzindo para o mercado.
Mas o problema não se resolve simplesmente estando empregado. A colonização do trabalho vai muito além das horas contratadas. Frayne mostra como o trabalho colonizou o tempo livre, a educação, as relações, a própria subjetividade. A pressão de empregabilidade, o imperativo contemporâneo de cultivar constantemente o próprio valor de mercado, transforma até o lazer numa extensão do trabalho. Hobbies viram "experiências para o currículo". Viagens viram "desenvolvimento pessoal". Amizades viram "networking". A racionalidade econômica, como Frayne cita o filósofo André Gorz, não deixa espaço para tempo livre autêntico que não produza nem consuma riqueza. O trabalhador que finalmente chega em casa não encontra liberdade, encontra um tempo de recuperação para poder trabalhar de novo.
E quando o trabalho finalmente "integra" a subjetividade, quando é pedido que você não apenas execute tarefas, mas traga sua personalidade, sua autenticidade, seu entusiasmo, a colonização se completa. Jamie Woodcock pesquisador do Instituto da Internet de Oxford e um estudioso nas relações de trabalho mediadas por tecnologia, documenta como o capital passou a extrair valor não apenas dos corpos e dos tempos, mas das almas. O trabalho afetivo, a gestão das emoções como parte central do processo produtivo, transformou sentimentos em mercadoria. O filósofo Franco Berardi resume com precisão: a comunicação e o contato humano perdem seu caráter de encontro gratuito e prazeroso para se tornarem uma necessidade econômica, uma ficção sem alegria. Quando alguém chega ao consultório sentindo que não sabe mais separar quem é de "o que faz", essa experiência tem nome e tem causa.
Marx chamou de alienação a experiência de trabalhar num sistema onde o produto do seu trabalho não te pertence, onde o processo te é imposto de fora, onde você não se reconhece no que faz. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, radicaliza esse diagnóstico para o momento presente: o sujeito contemporâneo não é mais oprimido por um "você não pode" externo, ele é destruído por um "você pode tudo" interno. Saímos da sociedade disciplinar, onde o inimigo era visível e externo, e entramos na sociedade de desempenho, onde o sujeito se torna simultaneamente o explorador e o explorado. O burnout, para Han, não é o resultado de uma exploração que vem de fora, é o resultado de uma autoexploração voluntária, movida pela sensação de liberdade que acompanha o imperativo de desempenho ilimitado. O animal laborans contemporâneo não está acorrentado, ele se acorrenta. E exatamente por isso a violência é mais difícil de nomear e de resistir.
Existe uma coerção que não precisa de algemas. Ela opera através da organização das condições materiais de existência de tal forma que a única saída disponível é entrar na lógica produtiva nos termos que o sistema oferece. E quando não há alternativa real, não há escolha real, há apenas a ilusão de que você está onde está porque quis. Han nomeia isso com precisão: a autoexploração é mais eficiente do que a exploração alheia exatamente porque a sensação de liberdade a acompanha. Perpetrador e vítima tornam-se indistinguíveis. O sujeito que entra em colapso não tem um explorador identificável, tem apenas a si mesmo para culpar.
O sistema, é claro, tem respostas sofisticadas para esse desconforto. Uma delas é a cultura do propósito, a ideia de que o problema não é o trabalho assalariado em si, mas o fato de você ainda não encontrou um trabalho que seja a sua paixão. Transforme sua paixão em renda. Seja o CEO da sua própria vida. Empreenda. Se você ainda sofre, é porque ainda não otimizou bem. David Berrie e Emily McDonagh, ambos psicólogos com iniciativas no acolhimento de trabalhadores, mostram como essa narrativa opera sobre um terreno já colonizado: o capitalismo não apenas capturou o tempo de trabalho, mas também subsumiu as próprias capacidades de cuidado, vínculo e sentido que as pessoas buscavam fora do mercado. As relações de apoio mútuo, o cuidado com os outros, a criação de comunidade, tudo isso foi progressivamente incorporado à lógica produtiva, esvaziado de sua autonomia, e devolvido como serviço ou como demanda emocional não remunerada. Numa sociedade assim, é genuinamente mais difícil encontrar sentido fora do trabalho, não por falta de imaginação, mas porque as estruturas que sustentariam esse sentido foram sistematicamente desmanteladas.
O grupo “Psicólogos para Mudança Social”, desmontam empiricamente a premissa de que qualquer emprego é melhor que nenhum. Pesquisas mostram que empregos de baixa qualidade, com pouca autonomia, baixa remuneração, insegurança e ausência de sentido produzem danos à saúde mental equivalentes ou superiores ao desemprego. A relação entre trabalho e bem-estar não é linear, e a ideia de que basta estar empregado para estar bem é uma ficção conveniente que desonera o sistema de qualquer responsabilidade pelo sofrimento que produz.
Então o que tudo isso tem a ver com saúde mental? Tem tudo a ver.
Quando uma pessoa chega ao consultório exausta, sem saber mais quem é fora do trabalho, sentindo que fracassou porque adoeceu, carregando vergonha por não conseguir acompanhar o ritmo, perguntando o que há de errado com ela, o que ela está trazendo não é primariamente um problema individual. Ela está trazendo o custo pessoal de uma organização social coercitiva. Ela está trazendo o sofrimento que é produzido quando você internaliza, desde criança, que seu valor como ser humano está atrelado à sua produtividade. Ela está trazendo, como Han diria, a ferida de uma guerra que ela trava consigo mesma, sem perceber que as armas dessa guerra foram fabricadas fora dela.
O psicólogo crítico David Smail tem um nome para o mecanismo que torna isso tão difícil de perceber: "voluntarismo mágico". É a crença, amplamente promovida por iniciativas de bem-estar corporativo, por campanhas de saúde mental no trabalho, e às vezes até pela própria psicologia de que, por pura vontade individual, uma pessoa pode mudar o mundo que a causa sofrimento. O voluntarismo mágico inverte a relação entre o indivíduo e seu ambiente: em vez de reconhecer que o ambiente adoece, coloca no sujeito a responsabilidade de se tornar suficientemente resiliente para não adoecer. Esse mecanismo tem o efeito de fazer com que o sofrimento estrutural apareça como falha pessoal e a culpa, como decorrência natural.
O cuidado psicológico que ignora essa dimensão, que trata o esgotamento como um problema de regulação emocional, a falta de sentido como uma questão de autoconhecimento, a angústia diante do trabalho como uma distorção cognitiva a ser corrigida, não está errado. Mas está incompleto. E corre o risco de, sem querer, servir ao sistema que produz o sofrimento: devolvendo as pessoas ajustadas, funcionais, capazes de suportar mais. Aprimorar a capacidade de surfar numa maré que afoga não é cuidado é adaptação bem-sucedida a condições objetivamente adoecedoras.
Uma saúde mental crítica é, entre outras coisas, a recusa de separar o cuidado individual da análise das condições que produzem o adoecimento. É reconhecer que muito do que chamamos de patologia é resposta adaptativa e inteligente, no sentido de poder ser compreendida, a condições de existência que são objetivamente prejudiciais. É perguntar não só como essa pessoa pode se sentir melhor dentro da vida que tem, mas que tipo de vida seria possível se a organização do trabalho fosse diferente. Os Psicólogos para Mudança Social propõem cinco marcadores de uma sociedade psicologicamente saudável: agência, segurança, conexão, sentido e confiança. Nenhum desses marcadores se produz individualmente. Todos eles dependem de condições coletivas, políticas e materiais que estão, em grande medida, fora do alcance de qualquer intervenção clínica isolada.
Não estou propondo que a resposta seja simples, ou que exista uma saída individual limpa dessa estrutura. Frayne é honesto sobre isso: resistir ao trabalho numa sociedade centrada nele tem custos financeiros e psicológicos reais. Não dá para sair do sistema por força de vontade individual sem pagar um preço alto e esse preço não é distribuído igualmente. Quem tem menos amortecimento econômico paga mais. Quem já carrega as marcas de outras desigualdades, de gênero, raça, classe, paga ainda mais.
Mas existe uma diferença fundamental, e é aqui que começa o espaço de mudança, entre saber que você está sofrendo por razões estruturais e acreditar que está sofrendo porque há algo de errado com você. A primeira posição dói de outra forma. Ela não alivia o sofrimento imediatamente. Mas ela desloca a culpa do lugar errado e abre espaço para algo que a culpa fecha completamente: a raiva. A solidariedade. O reconhecimento de que outras pessoas estão sofrendo pelas mesmas razões. A percepção de que o que parecia falha individual é na verdade condição coletiva. E onde há condição coletiva, há possibilidade de demanda coletiva.
Murray, ao final de seu capítulo, propõe algo que pode parecer contraintuitivo: antes de falar sobre saúde mental nos termos que o empregador oferece, talvez seja necessário um momento de silêncio. Um silêncio ativo, que recuse a entrega de histórias de sofrimento para serem usadas como capital reputacional por empresas, que rejeite a quantificação do bem-estar como métrica de produtividade, que se recuse a chamar de solução aquilo que é apenas gestão mais sofisticada do problema. Esse silêncio não é resignação, é o espaço antes da fala recuperar seu potencial radical. É o momento em que o sofrimento deixa de ser sintoma individual e começa a ser linguagem política.
E é por isso que não consigo falar sobre saúde mental sem falar sobre trabalho. Não como tema periférico, não como fator de estresse a ser gerenciado, mas como condição estrutural do sofrimento que chega até mim todos os dias no consultório, nas organizações onde atuo, nas conversas que não cabem em nenhum formulário de triagem. Enquanto o único pertencimento que a nossa sociedade oferece for o pertencimento como unidade produtiva, enquanto a dignidade for algo que se conquista entrando na lógica coercitiva do mercado, vamos continuar produzindo, em escala industrial, pessoas que não sabem existir fora do trabalho, que adoecem tentando cumprir uma exigência impossível, e que se culpam por isso.
O horizonte não é individual. Nomear a estrutura é um passo fundamental, talvez o primeiro, mas é só o começo. O que vem depois é mais difícil e mais necessário: construir, coletivamente, as condições que hoje estão sendo desmanteladas. Comunidades de cuidado mútuo que não dependam do mercado para existir. Tempo livre que seja genuinamente livre. Relações que não precisem se justificar em termos de utilidade econômica. Uma política que coloque o bem-estar real, não a produtividade, não a resiliência, não a capacidade de suportar mais, no centro das suas exigências. Isso é projeto político. É também, profundamente, projeto de saúde.



