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O diagnóstico não importa: cuidar é devolver voz, agência e poder.

  • Foto do escritor: André Lombardi
    André Lombardi
  • 12 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 28 de dez. de 2025

Introdução

Dizer que “seu diagnóstico não importa” pode soar como uma heresia em tempos de psicologia gerida por checklists, manuais e algoritmos de triagem. Mas essa afirmação não nasce de uma negação do sofrimento — nasce, ao contrário, do compromisso radical de levá-lo a sério. O sofrimento é real. O que está em questão é a forma como decidimos nomeá-lo, compreendê-lo e agir diante dele. E talvez o problema não esteja no sofrimento em si, mas nas molduras que usamos para interpretá-lo. A psicoterapia moderna, ao longo do último século, oscilou entre dois polos: de um lado, a ambição médica de tratar sintomas como disfunções localizadas; de outro, a tradição humanista que insiste em compreender a dor como expressão da experiência humana. Entre esses dois mundos, o modelo dominante — o Modelo Médico — consolidou-se como promessa de rigor científico e previsibilidade, mas acabou por transformar o sofrimento em uma espécie de falha operacional da pessoa. É nesse ponto que a obra de Jerome Frank, em Persuasion and Healing (1961), se torna fundamental. Frank propôs que “as pessoas buscam psicoterapia pela desmoralização que resulta de seus sintomas, em vez de pelo alívio dos sintomas. A psicoterapia alcança seus efeitos em grande parte tratando diretamente a desmoralização e apenas indiretamente tratando sintomas manifestos de psicopatologia encoberta” (Parloff, 1986, p.522). Ou seja: o que traz alguém à terapia não é o “transtorno”, mas o esgotamento moral que surge quando todas as tentativas de lidar com a vida fracassam. A terapia não “cura” um defeito, mas oferece um novo campo de significação — um espaço simbólico no qual a pessoa pode se remoralizar, reencontrar agência e reorganizar o sentido de sua própria história. Esse insight, desenvolvido e radicalizado por Bruce Wampold, abre uma fissura na estrutura do pensamento clínico contemporâneo. Em The Great Psychotherapy Debate, Wampold e Imel mostram, com rigor empírico, que a eficácia da psicoterapia não se deve a técnicas específicas, mas à relação, à expectativa e à credibilidade simbólica do encontro. A tese é devastadora para a lógica médica: se não há ingredientes específicos que expliquem a mudança, então o que se cura em terapia não são sintomas, mas o desalento existencial que nasce do fracasso de se fazer compreender no mundo. O diagnóstico, nesse contexto, não apenas se torna secundário — ele se torna um obstáculo.



Parte 1 — A crítica de Wampold e o colapso do Modelo Médico

O Modelo Médico (MM) estrutura-se em torno de cinco pilares:

  1. uma noção de doença ou disfunção;

  2. uma explicação causal (biológica ou psicológica);

  3. um mecanismo de mudança;

  4. ações terapêuticas específicas;

  5. e a suposição de que há especificidade — certas técnicas produzem certos efeitos em certos transtornos.

Essa arquitetura, inspirada na medicina tradicional, pressupõe que a mente é um corpo doente e que a terapia é uma forma de farmacologia simbólica. Mas Wampold demonstra, com base em décadas de meta-análises, que esse edifício é sustentado mais por fé institucional do que por evidência científica. A primeira fissura aparece com o veredicto do Pássaro Dodô — a constatação de que todas as psicoterapias bona fide são igualmente eficazes. Se tratamentos baseados em teorias opostas produzem resultados equivalentes, o que exatamente estamos tratando? O segundo golpe vem com o efeito do terapeuta: a variabilidade entre terapeutas é maior do que a variabilidade entre tratamentos. O que cura, então, não é o protocolo, mas o encontro — a presença, a escuta, o vínculo. Em seguida, os estudos de desmantelamento mostram que remover “ingredientes ativos” das terapias não altera os resultados. A eficácia permanece, mesmo sem o suposto componente essencial. Da mesma forma, a aderência ao protocolo e a competência técnica, alçadas a critérios de excelência no MM, demonstram correlações insignificantes com os desfechos clínicos. Por fim, terapias consideradas “anômalas” — como EMDR ou Terapia Centrada no Presente — funcionam tão bem quanto as abordagens ortodoxas. Diante desses dados, Wampold propõe o Modelo Contextual: a terapia não é uma intervenção técnica, mas um ritual social e simbólico, sustentado pela crença compartilhada de que a mudança é possível. O que tem poder terapêutico é a relação e o significado — não o manual. Essa constatação leva a uma consequência lógica e perturbadora: se não há ingredientes específicos, então não há motivos científicos para tratar sintomas específicos como guias exclusivos do trabalho clínico. Essa é a ruptura que abre caminho para o PTMF.



Parte 2 — O PTMF e a crítica estrutural ao diagnóstico

Se Wampold desmonta o modelo médico do ponto de vista empírico, o Power Threat Meaning Framework (PTMF) — de Lucy Johnstone e Mary Boyle — faz o movimento filosófico e ético de ruptura. Ele não quer apenas mostrar que o modelo médico é ineficaz, mas que ele é inadequado para compreender a experiência humana. O PTMF nasce de uma constatação política: o sofrimento não é um defeito, é uma resposta. Não há nada “errado” com quem sofre — há algo errado com as condições em que esse sofrimento se torna inevitável. Por isso, sua pergunta central não é “O que há de errado com você?”, mas “O que aconteceu com você?”, “Como o poder operou em sua vida?”, “Que ameaças você enfrentou?”, “Que significados você construiu?”, “Como você sobreviveu?”.

Essa mudança de foco dissolve o alicerce do diagnóstico, e os autores demonstram isso em cinco frentes principais:

  1. A falha empírica da biologia como base do diagnóstico — Décadas de pesquisa não encontraram correlações consistentes entre diagnósticos e anomalias biológicas. O próprio David Kupfer, presidente da força-tarefa do DSM-5, admitiu que essa promessa “permanece decepcionantemente distante”.

  2. O erro filosófico: confundir corpos com pessoas — O diagnóstico médico é útil quando trata de órgãos que falharam. O sofrimento psíquico, porém, é linguagem. A psiquiatria, ao importar a lógica do corpo, transforma sujeitos em objetos sobre os quais forças causais atuam. O PTMF afirma: o sofrimento é inteligível — comunica algo sobre o contexto social, o poder e a história do sujeito.

  3. A falência científica das categorias — As categorias do DSM e da CID são instáveis, sobrepostas e incoerentes. Pessoas com o mesmo diagnóstico compartilham pouco entre si; e pessoas com diagnósticos diferentes compartilham muito. A comorbidade é a regra, não a exceção.

  4. O diagnóstico como decisão política — As categorias diagnósticas são votadas, não descobertas. São produtos de comissões e consensos, não de causalidades. Nomear é legislar: ao dizer “você tem depressão”, define-se não apenas o que a pessoa sente, mas o que ela deve fazer com isso.

  5. A marginalização da causalidade social — A medicalização transforma desigualdade, violência e trauma em problemas individuais. O modelo diagnóstico desvia o olhar do contexto, apagando o poder, a pobreza e o trabalho.

O PTMF restitui essa dimensão política: o sofrimento é uma resposta coerente às ameaças produzidas pelo exercício desigual do poder. A partir daí, a crítica se torna ética. Se o diagnóstico reduz a pessoa a um código e o modelo médico transforma o sofrimento em disfunção, o cuidado precisa operar em outro registro. O PTMF propõe, então, uma psicologia da restituição simbólica: ajudar o sujeito a compreender o que o desmoralizou, como o poder operou sobre ele e quais significados sustentaram sua sobrevivência. Para que isso se torne prática — e não apenas reflexão — é preciso um modo de cuidar que traduza essa visão em gesto. É nesse ponto que entra o Tidal Model, de Phil Barker.



Parte 3 — O Tidal Model e a ética do cuidado como devolução de voz, agência e poder

Se Wampold mostra que a eficácia da psicoterapia não reside em técnicas específicas, e o PTMF revela que o diagnóstico é um dispositivo de poder, Phil Barker, com o Tidal Model, oferece uma ética e uma prática que respondem à pergunta: como cuidar sem reproduzir o poder que adoece? A resposta de Barker nasce de uma metáfora: a vida como mar. A experiência humana é fluida e imprevisível, feita de marés que sobem e descem. Quando o sofrimento se instala, a pessoa não está “doente”: está à deriva. O terapeuta não corrige o curso — ajuda a pessoa a reencontrar o próprio ritmo da maré. O Tidal Model propõe uma inversão radical: em vez de entender o sofrimento como falha, reconhece-o como desempoderamento — o momento em que a pessoa perde o controle da própria narrativa.

1. A metáfora da água — Crise, naufrágio, resgate e retomada. O terapeuta é um navegante ao lado, não o capitão. O objetivo não é “normalizar”, mas ajudar a reencontrar o próprio modo de viver.

2. Reempoderar, não corrigir — O cuidado deve registrar literalmente o que a pessoa diz, sem tradução técnica. A tradução é uma forma de roubo simbólico. A terapia começa e termina com a narrativa: o dizer devolve poder.

Barker propõe três dimensões do ser humano:

  • O Mundo – necessidade de ser compreendido e validado;

  • O Eu – necessidade de ser respeitado e recuperar o controle;

  • Os Outros – necessidade de pertencimento e suporte concreto.

Essas dimensões mostram que o sofrimento não é apenas intrapsíquico — é existencial, social e político.

3. Ética da relação e do tempo — O Tidal Model afirma que o cuidado nasce da relação, não da técnica. Escutar é o próprio ato terapêutico. A pressa institucional gera profissionais que “sabem sobre” as pessoas, mas não “sabem com” elas. Saber com é reconhecer que a reconstrução exige tempo e co-presença.

4. O cuidado como restituição simbólica do poder — Cuidar é redistribuir poder. É devolver ao sujeito o direito de nomear sua própria história. O terapeuta é mediador simbólico — sustenta o espaço em que o sujeito existe fora das categorias que o aprisionaram.

Barker realiza o gesto ético que Wampold e o PTMF anunciam: o cuidado não é correção, é devolução de voz, agência e mundo. A remoralização de Frank encontra aqui sua tradução prática. Quando a terapia devolve à pessoa o direito de narrar-se, ela restaura dignidade. Assim, o Tidal Model fecha o arco iniciado por Wampold e ampliado pelo PTMF:

  • Wampold mostra que o que cura é a relação;

  • o PTMF mostra que o sofrimento é uma resposta inteligível ao poder;

  • Barker mostra que o cuidado é o espaço onde essa resposta pode ser narrada novamente.



Manifesto — Cuidar é devolver voz, agência e poder

Não é o diagnóstico que cura. É o encontro.

Fomos ensinados a pensar o sofrimento como defeito e a terapia como técnica de reparo. Mas toda a evidência — empírica, ética e existencial — aponta para outro lugar. Wampold mostrou que não existem “ingredientes específicos” que garantam o êxito da psicoterapia. O PTMF revelou que o diagnóstico é um dispositivo de poder que transforma respostas compreensíveis em disfunções. E Barker ensinou que o cuidado é uma maré — um movimento que só é verdadeiro quando se move junto com quem sofre. Essas três perspectivas convergem em uma ética radical: não há saúde mental possível em estruturas que silenciam o sujeito. Cuidar é sempre um gesto político, porque é um gesto de redistribuição simbólica de poder. O que adoece não é o sintoma — é a desmoralização, como escreveu Frank em Persuasion and Healing.

“As pessoas buscam psicoterapia pela desmoralização que resulta de seus sintomas, em vez de pelo alívio dos sintomas...”

O sofrimento não é um erro a ser corrigido, mas a fratura entre o que a vida exige e o que se pode sustentar. A clínica é um espaço de remoralização: reconstrução simbólica do lugar do sujeito no mundo. O terapeuta não é técnico que conserta uma máquina desajustada; é mediador simbólico que sustenta a pergunta: “O que aconteceu com você?” — e não “O que há de errado com você?”.

Porque, se o diagnóstico reduz, a narrativa devolve.  Se o diagnóstico explica, a narrativa escuta.  Se o diagnóstico separa, a narrativa reconecta.

Essa é a clínica que defendo: uma clínica que não começa com o diagnóstico, mas com o reconhecimento; que não se guia por protocolos, mas por presença; que entende que o sofrimento é humano antes de ser patológico; e que acredita que escutar alguém é, talvez, o gesto político mais radical de nosso tempo.

No fim, o que a evidência científica, a filosofia e a ética parecem dizer juntas é simples e profundo: não há técnica que substitua um encontro real. E não há diagnóstico que valha mais do que uma história contada em voz própria. É isso que tento sustentar no meu trabalho clínico: não uma clínica de rótulos, mas um espaço de reapropriação simbólica — um lugar em que o sujeito possa se reconhecer como quem sobreviveu, como quem ainda navega. Se você tem se sentido à deriva, talvez o começo do cuidado não seja encontrar um nome para o que sente, mas um espaço em que o que sente possa ser ouvido — e que, a partir daí, um novo sentido possa nascer.

Porque, no fim das contas, o diagnóstico não importa. O que importa é o que você faz com a história que ele tentou silenciar.


 
 

Psicólogo André Lombardi
CRP 06/143498​

(11) 97110-9172
andre@labirinto.run

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