O problema do modelo de diagnóstico
- André Lombardi

- 24 de set. de 2024
- 1 min de leitura
Atualizado: 28 de dez. de 2025
Muitas vezes ouvimos que o sofrimento emocional vem de um “desequilíbrio químico” no cérebro. Mas essa ideia simplifica demais uma questão complexa: grande parte do sofrimento nasce, na verdade, de um desequilíbrio de poder. Quando adotamos um modelo de cuidado que desconsidera a capacidade das pessoas de dar sentido às próprias experiências, não estamos acolhendo, mas sim promovendo silenciamento.
Colocar a explicação no corpo – como se fosse apenas um problema de funcionamento cerebral – é uma escolha epistemológica, e não uma verdade científica absoluta. A fisiologia é apenas um dos elementos que compõem o sofrimento humano, mas não pode ser tomada como sua origem única ou determinante.
O modelo de diagnóstico, ao afirmar que “seu cérebro problemático é o que faz você sofrer”, muitas vezes impede uma reflexão crítica sobre as condições de vida. Assim, ele desvia o olhar daquilo que realmente impacta nossa saúde mental: as formas de exploração e opressão que vivemos no dia a dia.
Se o cuidado pretende ser realmente transformador, é fundamental devolver às pessoas o protagonismo na construção de sentido sobre sua dor. Esse processo não nega o sofrimento, mas amplia a forma de entendê-lo, permitindo que cada um possa resgatar sua agência para lidar com as condições de sua vida e criar os futuros que deseja.
Por isso, talvez devêssemos trocar a pergunta “o que há de errado com você?” por “o que aconteceu com você?”. A terapia online pode ser esse espaço de reconstrução de sentido, onde não se trata de encaixar pessoas em diagnósticos, mas de criar narrativas mais humanas, acolhedoras e libertadoras para o sofrimento.



